Coluna Professor Cláudio César: "Mantinha"



Cláudio César Magalhães Martins*

Pouco se sabia do seu passado. Chegara ao Ipu no fatídico ano de 1915, em que uma seca devastadora se abatera sobre o Ceará, provocando êxodo, mortes e destruição. Não revelou o nome de seus pais nem de seus irmãos. Falava apenas que tivera uma filha, fruto de uma relação indesejada, tudo levando a crer que se tratara de um estupro. Seu nome de batismo era Maria Fernandes, mas era conhecida sob a alcunha de “Mantinha.”

Foi acolhida, como agregada, por meus avós maternos, José Júlio Martins e Maria Luísa Magalhães Martins, na casa dos quais permaneceu por longos anos. Minha mãe, Luísa Magalhães de Pinho, nascida em 1922 e casada com “seu Pinho” (Francisco Martins de Pinho) em 1944, recebeu-a como uma espécie de dote.

Lembro-me dela desde criança como cozinheira da família e cuidadora das crianças, com seu jeito rústico, mas, ao mesmo tempo, maternal. Na qualidade de agregada, não recebia salário regular, mas pequenos “agrados”, ora em dinheiro, ora em roupas, ora em artigos de primeira necessidade.

Era a dona absoluta da cozinha. Não permitia que minha mãe se intrometesse em suas atividades, no que era prontamente obedecida, visto tratar-se de exímia cozinheira.

Quando meus pais se mudaram para Fortaleza, no final dos anos 60, “Mantinha”, que já se tornara uma figura indispensável para a família, acompanhou-os, continuando a prestar seus valiosos serviços de exímia cozinheira que era.

Morreu no ano 2000, com cerca de 100 anos. Seus últimos anos foram de sofrimento e prostração, tendo, contudo, recebido pleno apoio de minha mãe, que reconheceu nela uma auxiliar útil, fiel e desinteressada.

Hoje, ao relembrar a figura da “Mantinha”, fico a pensar em como existem pessoas que passaram por este mundo sem procurar sobrepor-se aos seus semelhantes, mas apenas em prestar-lhe serviços.

Certamente, “Mantinha” foi recebida no mundo celestial como “Irene”, personagem de um dos poemas de Manuel Bandeira, do qual reproduzo a parte final: ”Imagino Irene entrando no céu. “Licença, meu branco !” E São Pedro bonachão: “Entra, Irene, você não precisa pedir licença !”


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*Professor Cláudio César é graduado em Ciências Econômicas pela UFC (1970-74);

- Mestre em Administração Contábil e Financeira pela Escola de Administração de Empresas de São Paulo, da Fundação Getúlio Vargas - FGV/EAESP - (1984-87);

- Técnico em Desenvolvimento Econômico do BNB (TDE), no período 1977-1995;

- Professor Adjunto da UECE, no período 1994-2014;

- Pró-Reitor de Administração da UECE (2007-2008);

- Atualmente, é vice-presidente da FUNDAÇÃO DE CULTURA E APOIO AO ENSINO, PESQUISA E EXTENSÃO (FUNCEPE), em Fortaleza (CE). Escreve semanalmente ao Blog Expresso Ipu sendo colunista colaborador.
 
**A reprodução do artigo acima transcrito é somente autorizada mediante citação da parte autoral!
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Sobre Rárisson Ramon

Rárisson Ramon, de Ipu - CE de nascimento e criação, é acadêmico de direito, faz participações em rádio e é blogueiro.