Marx e o Retrato: Crônicas de um neo-acadêmico, um texto do Historiador Professor Iramar Miranda


Início dos anos 2000, Eu, acadêmico do Curso de História da Universidade Estadual Vale do Acaraú - UEVA, 26 ou 27 anos de idade, (re) descobrindo o mundo e a teoria socialista, agora com viés teórico metodológico embasado na leitura de textos clássicos "básicos para se entender o socialismo", como os alemães Karl Marx e Friedrich Engels (precursores), o italiano Antonio Gramsci, na história, o inglês Eric Hobsbawm e no Brasil, Caio Prado Júnior, entre tantos outros, tendi (como outros colegas de curso) àquele sentimento de ver as transformações sociais acontecerem, nascendo em mim aquela velha angústia que a maioria dos neo-socialistas sentem, que é perceber em tudo conflitos, ódios e explorações, enfim, aquilo que Marx chamou de Luta de Classes.

Poderia reforçar meu sentimento, explicando que, o que conhecia de socialismo, marxismo, tinha aprendido no Ensino Básico (ou seja, dado o momento político brasileiro, não tinha aprendido praticamente nada) e em segunda momento, no Centro de Formação e Aperfeiçoamento dos Praças - CEFAP) em Fortaleza, portanto, quem já não tinha aprendido nada, quando fui aprender sobre o assunto, foi a partir da necessidade de repressão, nos moldes militares, sendo o Socialismo tratado como um inimigo da sociedade, que necessitava ser combatido. Não esqueço uma frase repetitiva de um oficial que gritava em nossos ouvidos que: "NÃO MUDOU NADA", e nós acreditávamos, e aprendíamos que nada tinha mudado mesmo.

Então, no mundo acadêmico passei a conviver com o conflito: Socialismo é ou não bom para a sociedade? Os professores e as leituras passaram a ter voz mais altiva do que os gritos do oficial. Pensava agora: "MUDOU TUDO". O povo está consciente que é explorado, sabe que juntos podemos fazer a diferença, que a classe burguesa não tem a mínima intenção de ver a classe trabalhadora com direitos básicos, pois a necessidade do lucro imediato tem mais força e maior representação em seus conceitos e Eu, depois de gravar na mente outra frase que soava em meus ouvidos como os gritos do oficial, bradava agora "Proletarier aller Länder, vereinigt euch!" (Trabalhadores do mundo, uni-vos!).

O sentimento de acreditar que Eu era agora mais um soldado na luta pela mobilização da classe trabalhadora, classe esta que, historicamente, fora massacrada, como Eu também fui, me fez crer que iríamos tomar o poder. Que poderíamos implantar (ou reforçar) em nossos lugares a Teoria Socialista (Salvadora da Nação), que poderíamos e vivenciaríamos a partilha dos bens, vendo acontecer a Reforma Agrária e num sentimento de ufanismo ideológico, acreditava ainda que veríamos a classe burguesa sentar às mesas e saciar sua fome com a mesma refeição que os trabalhadores, pois Eles também se aquiesceriam da consciência de que foram "vilões" na formação econômica do Brasil. Acreditava que iríamos ver nossa sociedade igualitária, vivendo numa espécie de Paraíso Terrestre, meio que na sociedade "Utópica", lembrando aqui de Santo Thomas Morus, (Patrono dos Estadistas e Políticos), no livro Utopia. Este discurso por mim apreendido estava afiado. "Eu aprendi tudo".

E lá vamos nós, defendendo a teoria, consciente da consciência do povo. Via em todos aliados ou inimigos. Angústia total. Entretanto, um dia, veio meu acalento. Entrando por acaso em uma loja de venda de sapatos, talvez a maior do lugarejo (aqui próximo à Ipu) me surpreendi com uma grande imagem de Karl Marx estampada na parede. Imponente, vistosa, como se estivesse a observar o dono do estabelecimento, os funcionários e os clientes que à loja adentravam.

Maravilhado fiquei. Senti uma sensação diferente, como aquele que ver suas esperanças terem sentido. Vivas!!! Me senti fortalecido quando vi ali, público, a imagem daquele que me passaram ser uma espécie de segundo salvador. Marx estava ali. Estava presente no cotidiano daquele povo, em lugar de destaque naquela loja, onde todos poderiam ver e COM CERTEZA, seriam adeptos de sua teoria.

Me apressei em conversar com o dono do estabelecimento. Ele, bom vendedor, aceitou logo meu falar. Puxei conversa sobre o socialismo, luta de classes, exploração, enfim, essas coisas de marxismo acadêmico. Quanto mais Eu falava, estranhamente, mais sentia o distanciamento de meu ouvinte, como se não estivesse entendendo o que Eu, "tão belo" apresentava, e, quase num ato de desespero de minha parte, fiz a celebre pergunta: "O que o senhor acha desse moço da foto que está destacado em sua loja?

E ele subitamente respondeu: "Não acho nada. Só sei que foi um grande vendedor de sapatos!". 

Me recolhi à minha insignificância.

Ipu/CE, 28/nov/16.

Prof. Antonio Iramar Miranda Barros 

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Sobre Rárisson Ramon

Rárisson Ramon, de Ipu - CE de nascimento e criação, é acadêmico de direito, faz participações em rádio e é blogueiro.