(Crônica) "Sobre cultura: Conceitos e práticas na cidade de Ipu/CE", por Iramar Miranda


Interessante observarmos, como a todo instante ao nosso redor, diferentes situações se organizam, se contradizem e se completam. Esses embates, às vezes imperceptíveis aos olhos menos apurados e desapercebidos moldam a sociedade, dando formas que podem ser analisadas a partir de símbolos e signos que representam o modo de vida a qual o ser humano está inserido em determinado tempo e espaço.

Um desses signos que se apresenta com maior intensidade, pode ser manifestado a partir de um termo que se popularizou e convencionou chamar de CULTURA. Este termo, é lançado aos ventos, de forma pejorativa, principalmente justificada pelas tradições das festas juninas, carnavalescas, festas de santos, entre outras, como se fosse simples assim.

Infelizmente, principalmente e com maior intensidade nas cidades interioranas, o poder público assim enxerga a cultura, como sendo algo palpável, visto e conhecido popularmente na divisão de determinadas datas ou períodos, como dito, carnaval, festas juninas, etc.

Mas realmente, o que significa cultura? Certa vez fiz essa pergunta a um representante politico de primeiro escalão na cidade de Ipu/CE, que não obstante, está sempre do lado do politico majoritário vencedor em busca de participação nas decisões, contudo, sem ter nenhum mandato eletivo. Insisto em crêr que seja por conta da preocupação com o bem comum... A resposta dada, com segurança, tentou me convencer quão simples é a análise do conceito, entretanto, deixou transparecer e me convencer mais ainda, o que nossos representantes entendem sobre esta questão, ou seja... quase nada.

“- Eu já viajei muito. Fui ao Chile, conheço o carnaval do Rio e a festa do Boi lá naquele estado dos índios. Conheço tudo de cultura...”.

Não poderia esperar muito de sua resposta, mas fiquei entristecido com relativo grau. Esses são nossos representantes. É isso que nosso poder público pensa e estamos fadados a conviver com eles. Em tempos de Lava-Jato, outra forma de surrupiar o povo, se manifesta no descaso pela coisa pública, com representantes que não sabem nem mesmo para o que representam no poder.

Peço emprestado à Antropologia, o que ela defende sobre o conceito de cultura, que para mim, talvez seja o mais abrangente, lembrando que é um conceito amplo e aberto a discussões. Para ela, cultura é mais que festas, cultura é significados, ligados por uma teia de relações. É convívio, e mais, é a própria orientação da existência humana (Geertz). Portanto, a arte pode ser uma maniferstação cultural, mas não a cultura como um todo. É um braço dela, uma teia ou símbolo das manifestações culturais traduzidas num gesto, num molde ou mesmo em práticas cotidianas.

E assim, lembro-me de um amigo professor, que passou alguns dias em Ipu ministrando um curso. Paraibano, graduado em Sociologia pela UFPB, Mestrado em Sociologia no Ceará pela UFC e Doutorado em Antropologia em Pernambuco pela UFPE, além de professor da UNIR (Universidade Federal de Rondônia), ou seja, ele mesmo por sí tem uma vasta experiência cultural. Ninno Amorim analisa o processo cultural em diferentes espaços e meios, de forma acadêmica e profissional. Mas, mais que isso, gosta de viver diferentes formas de convivências, talvez fruto de sua formação.

Hospedado em meu humilde Kitnet, muito conversamos sobre práticas culturais, abordando diferentes autores, modos de vida, pertencimentos, conceitos, enfim, um ambiente de discussões e aprendizagem. Mas mais que isso, meu amigo Ninno queria viver os espaços da cidade de Ipu, nas suas diferentes formas.

Primeiro, levei-o ao Sitio Alegria, onde passou uma manhã inteira junto aos “trabalhadores do barro”. D. Branca o presenteou com um copo de barro (acho que ele deve ter comprado mais uma dúzia), pois mais de uma vez reforçou o interesse de presentear alguns amigos com tamanha e perfeita peça.

Ainda no Sítio Alegria, inaugurou e reinaugurou várias vezes o copo, saboreando valiosa cana, junto com alguns moradores que, não difícil, rapidamente se fez amigo. E eu, enquanto ipuense, admirava-me com a facilidade e desenvoltura com a qual dialogava com os agricultores, parecendo mais um deles, tal conhecimento que tinha nas artes do plantio e cuidado com a roça.

Numa outra oportunidade, sempre acompanhado de sua caneca de barro, fortuito fora seu encontro com o ex-prefeito de Ipu Milton Pereira. Produtor de reconhecida “cachaça serrana” e sempre acompanhado de uma 'amostra”, talvez eu tenha presenciado o mais profundo diálogo sobre a questão da produção e evolução da cachaça, claro que, regado a boas doses, onde também saboreei o nectar dos escravos em duas ou três doses. Não lembro quem terminou a conversa, mas sei que não faltaram promessas de novo encontro para complementação dos debates. Influência ou não, posteriormente meu amigo Ninno entrou no doutorado em Antropologia analisando inclusive a cachaça genuinamente brasileira.

Posso afirmar que entre outros lugares, inclusive de memória que o levei, também o apresentei meu espaço e objeto de pesquisa de mestrado, ou seja, os espaços de venda do corpo. Também não era um lugar a ele estranho, pois como bom antropólogo, essa temática é bastante discutida nos espaços acadêmicos, o que se faz necessário aliar teoria e prática, claro, com a perspectiva analítica...

Os dias passando, para mim os lugares escasseando e não me vinha à mente mais lugares de convívio para apresentar. Foi quando, de súbito, lembrei que em Ipu havia uma comunidade cigana no Alto dos Quatorze, próximo à casa da ex-prefeita Toinha Carlos e do ex-prefeito Zezé Carlos. Ví a possibiliodade de levá-lo, entretanto, não tinha a liberdade e nem o conhecimento necessário para adentrar o espaço. O jeito era apelar para a sorte. Fomos pra um bar, chamado “bar do DVD”, não sei o porque desse nome e lá aguardar.

Ninno, agora acompanhado de um violão, passou a cantar músicas do “côco”, (fruto de suas análises do mestrado na comunidade de Aquiraz, em Fortaleza), também, MPB, clássicos regionais, enfim, um leque de opções, para todos os gostos.

Ao acaso, ou numa conjuntura nietzniana, depois de algum momento, eis que surge um Monza jacaré marrom, dando um conhecido cavalo-de-pau na frente do bar e dentro, não menos que 10 (dez) ciganos (sem exagero). Um deles, acho que o lider, deu boa tarde e foram aos gritos e graças sentar próximo ao balcão.

Ninno continua suas melodias, e nessa empreitada, começaram a mandar bebida para nossa mesa. Sim, não pediram, patrocinaram o agora estudante cantor. Com palmas e vivas, sentaram ao nosso lado, formando um circulo na calçada do bar do DVD.

Depois de umas três ou quatro músicas, o cigano mais colorido, com dentes brilhantes e motorista do carro vem com a seguinte pergunta:

- O “cigano fulano” pode dialogar com seu instrumento?

- Claro que sim? Respondeu o agora nosso amigo estudante/professor/cantor!

E assim se fez! O círculo formado, o cigano cantando e as palmas agora mais estridentes. Perceptível nesse instante, maior euforia por parte dos outros integrantes da tribo. E nós, como espectadores, passamos a analisar a situação, fazendo parte do circulo, observando a forma deles se manifestarem. E o inesperado aconteceu...

Depois de cantarem algumas músicas sertanejas, de comum conhecimento de todos, do NADA, mudaram o rítmo e o dialeto, e passaram a cantar músicas ciganas, numa linguagem para nós desconhecida.

Sem ninguém nada falar, todos os ciganos puxaram suas cadeiras, deixando eu e meu amigo Ninno fora do grupo, somente a observar. O que eles cantaram, falaram, não dá para descrever. Só sei que aquilo, a nós, diferentes, não nos pertencia.

Como estudante cultural, senti euforia no meu amigo Ninno. Para mim, a situação também fôra de aprendizagem. A eles, era concedido o direito de participar de “nossa cultura”, interagindo. A nós, os agora, no momento “outsiders”, nos fora negada. Cantada umas três ou quatro músicas, voltaram à melodia sertaneja, conhecida por todos. Retornaram com a música “um fio de cabelo”, de Chitãozinho e Xororó e instantaneamente, abriram o circulo e nos colocaram no meio. Sem nada falar, sem nada combinar, automaticamente.

Como estamos tratando sobre Cultura, eis mais uma manifestação cultural e como ela se apresenta. Situação incomum em nossas vidas, entretanto real. Cultura se vive, se sente, se apreende. Cultura é muito mais que simples festas dançantes.

E para concluir, depois lendo sobre a dança do côco cearense, dissertação de mestrado de meu amigo Ninno Amorim, lá estão as experiências dele na cidade de Ipu em destaque, quando relata o conceito de manifestações culturais.



Antonio Iramar Miranda Barros
Ipu/CE, abr/2017

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Sobre Rárisson Ramon

Rárisson Ramon, de Ipu - CE de nascimento e criação, é acadêmico de direito, faz participações em rádio e é blogueiro.