Professor Iramar Miranda analisa a influência da religião na política brasileira: Políticos Católicos e Evangélicos em cheque!



Lí atentamente a matéria sobre o pensamento da Igreja, nas palavras de D. Gilberto, e o texto já começa a me chamar atenção, quando ele “conclamou os fiéis à consciência e à luta coletiva” em prol de uma causa. Sabemos que historicamente, consciência e luta coletiva, foram conceitos não defendidos pelo clero, uma vez que estes soavam como perniciosos ao modo de controle coletivo, bem como tirava o poder de controle pessoal, fazendo com que a sociedade percebesse a possibilidade de se libertar das amarras que a religiosidade impõe, a partir da crença de um vida post mortem e a busca pela salvação.

Mas enfim, tenho medo de denominações e segregações, quando se fala em divisões no Congresso Nacional. “Bancada Ruralista”, “Bancada da Bala”, “Bancada Evangélica ou Religiosa”, entre tantas, mostram o quanto estamos reféns de interesses próprios, por politicos que tem a possibilidade de propor e mudar leis, sendo que estas devem, por uma questão de ética, estar ligadas ao bem comum da população como um todo.

Em 2015, início da última legislatura, 90 deputados federais entre homens e mulheres, professavam a religião cristã evangélica, entre pastores, presbiteros e fiéis, fazendo com que as reuniões e deliberações, fossem antecedidas de verdadeiros cultos e louvores, distorcendo - na minha visão - o que é de mais sagrado para o exercício parlamentar, que é o pensamento social coletivo, com equidade e sem excessões. Infelizmente, alguns religiosos têm verdadeira ojeriza aos que se professam contrários religiosamente, sagrando uma verdadeira batalha do bem contra o mal, entendido o mal, como todo aquele que não pensa igual religiosamente. E já na Constituição de 1891, o Brasil se apresenta como um país laico.

No Brasil, o surgimento de várias denominações com caráter pentecostal, a meu ver, fez florescer, ou fortalecer essas disputas, e claro, não a tenho como benígna. Temos exemplos no Oriente Médio, o quão maléfico se faz a mistura de poder politico e poder religioso no gerenciamento do Estado. Quando o poder eclesial pervalesce sobre o temporal, as deliberações e projetos, tendem a ser direcionadas a grupos, o que faz com que grande parte da população seja excluída, no caso do Oriente, até exterminada. Mas e aí, de quem é a culpa? Nesse caso eu não colocaria tão somente nos politicos, mas na religião, ou melhor, nos politicos que utilizam a religião como trampolim para galgarem mandatos eletivos, e lá estando, direcionam seu mandato para causas religiosas, engessadas no que defende a sua congregação.

No Brasil, a maioria dos parlamentares pertencem a igrejas pentecostais, tendo a Assembleia de Deus como detentora do maior número de representantes. A igreja Universal, do Bispo Edir Macêdo vem em segundo lugar, com grande número de parlamentares. As denominações Sara Nossa Terra e a Igreja Quadrangular, vem um pouco atrás, com menor número de fiéis parlamentares. Entre estes “dignos representantes de todos”, temos: Marcelo Crivella (ex-senador e agora prefeito do Rio de Janeiro), João Campos e Marco Feliciano, bem como a filha do Antony Garotinho, a deputada Clarissa Garotinho. Não podemos esquecer que o Eduardo Cunha, era da denominação Sara Nossa Terra e trocou pela Assembleia de Deus. Vai aparecer um Magno Malta (ES) lá pelo Senado, um Valter Pinheiro Igreja Batista da Bahia), além do já dito Crivella (RJ). Vejam onde estamos ou para onde irá os rumos da politica brasileira.

Nesse interim, não podemos esquecer que 71% dos parlamentares questionados na última legislatura, se denominaram católicos. 14% cristãos, dois (maniqueístas?) mais preocupados em atender a todos com a opinião pública, disseram que seguiam todas as religiões (rs) e 4,5% disseram não pertencer a religião alguma. Entre os católicos fervorosos, está o Padre João, do PT mineiro, que com certeza, teve seu eleitorado oriundo dessa corrente religiosa.

O que quero com essas afirmações? Afinal, o que me fora questionado fora o pensamento da Igreja Católica, representado pelas palavras de D. Gilberto. Sabemos que tramita no congresso projetos referentes à liberação da maconha, à liberação do aborto, Estatuto da Familia, jogos de azar, entre outros, que de certa forma, vão contra o que a Igreja Católica defende, como organização e instituição preocupada com a “salvação”. A defesa contrária a alguns desses pontos, levada em consideração o teor teológico e sacramental de tal instituição, acredito que devem embasar a fala e a defesa do referido bispo.

Como não sou tão religioso, me abstenho de entrar em alguns dogmas da Igreja, por ser uma questão de fé, entretanto, respondendo a quais leis humanas favoreceriam à “ressurreição”, na visão dos nossos representantes politicos religiosos, principalmente os mais eufóricos, seriam todas as leis que, antes de qualquer coisa, deveriam ser respaldadas pelo que a Bíblia, ou interpretação dela, defende. E aí vamos entrar em temas polêmicos, defendidos com ardor pelos evangélicos, tendo como exemplo, a preocupação de discutir projetos de lei referentes à “cura gay”de um Marco Feliciano, do conceito de família representado unicamente por homem, mulher e filhos, (6583/13) do deputado Anderson Ferreira (PR-PE), se contrapondo ferrenhamente a projetos que, segundo eles, respaldados pelo conceito de valorização da família e defesa dela, vão condenar projetos como o da liberação da maconha Projeto de Lei 7187/14, do deputado Eurico Júnior (PV-RJ). Assim, nessa luta de defesas parlamentares, vejo que as Igrejas influenciam bastante nos posicionamentos de nossos parlamentares. Ora a favor, ora contra, mas tendo como pano de fundo, dogmas defendidos nas esteiras do pensamento religioso. Portanto, não pesa o pensamento da população, mas o pensamento das instituições a qual os parlamentares estão inseridos, e acredito que isso prejudica.

Santo Agostinho, em seus escritos, dizia que toda felicidade advinha de Deus e que toda autoridade tem em Deus sua origem. Mas também defendia que todo o poder deveria ser prestado a serviço do povo, sem intenções prórias, honrando o nome dele, Deus. Infelizmente, nossos representantes podem até direcionar o nome de Deus em suas defesas, mas estão muito aquém da ética defendida por Aristóteles, aporte de Agostinho, como se distanciaram, e muito, dos preceitos de uma verdadeira religiosidade.

Fico feliz com a preocupação da Igreja com relação à reforma da previdência, como também sua atitude em conclamar os fieis a participarem, mas acredito que a defesa da fala do bispo, seja mais social do que religiosa, uma vez que não consigo perceber a relação entre a previdência, com os dogmas de fé. Louvo-o pela atitude, e chamo a todos para participarem da defesa de nossos direitos, trabalhistas e previdenciários no dia 28/04/2017.
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Texto do Professor Iramar Miranda, originalmente dirigido a atender a um questionamento do ipuense Guto Pontes.
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Sobre Rárisson Ramon

Rárisson Ramon, de Ipu - CE de nascimento e criação, é acadêmico de direito, faz participações em rádio e é blogueiro.