Coluna Professor Cláudio César: "Não existe almoço grátis"


Por Cláudio César Magalhães Martins*

A frase “não existe almoço grátis” foi atribuída erroneamente a Milton Friedman, Prêmio Nobel de Economia de 1976, e significa, em termos financeiros, que, mesmo que alguém almoce gratuitamente ou aufira uma benesse sem ter que pagar, a conta está sendo paga por outra instância.


No Velho Oeste, os bares forneciam almoço grátis desde que o cliente comprasse algum tipo de bebida. Atualmente, em Las Vegas, os cassinos chegam a oferecer refeições e bebidas gratuitamente em troca da participação das pessoas nos jogos de azar, que são destinados a arrancar dos jogadores altas quantias, pois foram criados exatamente com a finalidade de enriquecer o dono do cassino.

Na vida cotidiana, nos deparamos com situações em que empresários inescrupulosos oferecem dinheiro e benefícios a políticos e a altos funcionários de empresas estatais, mas exigem, em contrapartida, um elevado retorno, normalmente com contratos de alto valor monetário e na aprovação de leis que os beneficiem.

A sabedoria popular cunhou o adágio "de esmola grande cego desconfia" para caracterizar o fato de que, muitas vezes, uma benesse concedida a alguém gratuitamente gera, posteriormente, uma cobrança que vem a complicar a sua vida. Lembro-me do manjado golpe do bilhete premiado, onde um malandro, fingindo-se ingênuo e desinformado, oferece a alguém, de preferência idoso, um bilhete de loteria supostamente premiado em troca de certa quantia por ele estipulada. Logo surge um comparsa seu reforçando a oferta e tentando induzir a vítima a cair no golpe. Quem acredita na farsa perde o seu rico dinheirinho.

Recentemente, a imprensa de Fortaleza relatou o episódio em que várias pessoas foram enganadas por um falso corretor de imóveis que vendia casas por um preço bastante inferior ao de mercado, após falsificar as escrituras das referidas casas, que já haviam sido vendidas anteriormente. O caso foi parar na polícia e dificilmente as vítimas irão recuperar os valores pagos.

A Operação Lava-Jato tem apresentado inúmeros casos que confirmam o dito acima. Milionárias propinas foram pagas por empreiteiras a políticos e a tecnocratas inescrupulosos em troca de contratos superfaturados que, em sua maioria, ultrapassavam bilhões de reais. O crime parecia perfeito: corruptos e corruptores seriam beneficiários da monumental mutreta. Entretanto, o que se vê hoje é cadeia para os que participaram dessa trama ignóbil e bloqueio dos bens irregularmente adquiridos.

Ante o exposto, conclui-se que, na verdade, "não existe almoço grátis". Frequentemente, o preço a ser pago pelas iguarias saboreadas supera, em muito, o prazer por elas proporcionado.



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*Professor Cláudio César é graduado em Ciências Econômicas pela UFC (1970-74);

- Mestre em Administração Contábil e Financeira pela Escola de Administração de Empresas de São Paulo, da Fundação Getúlio Vargas - FGV/EAESP - (1984-87);

- Técnico em Desenvolvimento Econômico do BNB (TDE), no período 1977-1995;

- Professor Adjunto da UECE, no período 1994-2014;

- Pró-Reitor de Administração da UECE (2007-2008);

- Atualmente, é vice-presidente da FUNDAÇÃO DE CULTURA E APOIO AO ENSINO, PESQUISA E EXTENSÃO (FUNCEPE), em Fortaleza (CE). Escreve semanalmente ao Blog Expresso Ipu sendo colunista colaborador.
 
**A reprodução do artigo acima transcrito é somente autorizada mediante citação da parte autoral!
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Sobre Rárisson Ramon

Rárisson Ramon, de Ipu - CE de nascimento e criação, é acadêmico de direito, faz participações em rádio e é blogueiro.