(Crônica) "Convencimento e Cultura na arte da labuta", um texto do Historiador Professor Iramar Miranda



Crônicas de um neo-acadêmico

Sempre gostei e me identifiquei com o termo mestre. Filho de trabalhador da construção civil, me orgulhava quando os proprietários das obras alcunhavam meu pai com tal adjetivo. Pensava e acreditava que Ele sendo mestre, não era engenheiro, pois precisava de faculdade, mas hierarquicamente, era o responsável pela obra, comandando profissionais e o engenheiro (quando existia), se reportava a ele, meu pai. O engenheiro quando fiscalizava os trabalhos, fazia cálculos (que eu nunca entendia), e meu pai na sua maestria, passava a responder a tudo com desenvoltura e facilidade tanta, que Eu chegava a acreditar que era o engenheiro quem estava tirando dúvidas com Ele e pedindo orientação. E Eu dizia: vou ser mestre.

Mas o serviço na construção civil ardia muito em meus ombros. Acho que desisti cedo de ser mestre-de-obras, porque o sol escaldante de nossa região exigia maior esforço físico dos trabalhadores e confesso que, embora gostasse, o trabalho duro não ficou para os “FRACOS”. Me inclui nessa categotia e fui para outras áreas.

Entre tantas caminhadas (temas para outras crônicas) adentrei à carreira do magistério. Me identifiquei muito com o termo professor e pensei: “se me chamam de mestre, nada mais justo que faça jus às expectativas. Ingressando no Mestrado em História e Culturas (MAHIS) da Universidade Estadual do Ceará – UECE -, adquiri este grau em 2009, e agora, como meu pai, também era chamado de mestre, e oficialmente.

Convidado por um amigo de curso (secretário de cultura) a ministrar uma palestra em sua cidade, esta relatativamente pequena, preparei a apresentação e coloquei o carro na estrada. Como era distante, outra região do Ceará, entre uma música e outra, meditava sobre como desempenhar a didática na apresentação. Pensei qual público me aguardava e como seria a aceitação, sendo que em meu pensamento, na secretaria de cultura o número de servidores é reduzido e ainda mais em um sábado. “Eh! A apresentação e os slides estão dentro dos padrões!” Assim acreditei.

Adentrando à cidade, fui surpreendido com uma faixa: “Bem-vindo Prof. Mestre Iramar!”. O que era aquilo? Meu colega tinha me pregado uma peça? Agora, rapidamente (re) pensei no conteúdo preparado para apresentação. Estaria à altura de quem me aguardava? E agora, quem estaria me esperando? Tranquilo, pensei... É o pessoal da cultura e entenderão meu pronunciamento.

Qual surpresa, chegando ao local do evento (à época celular não era tão comum), vejo um número considerável de pessoas à frente do local do evento. E quem eram aqueles todos? Meu contemporâneo achando pouco, “convidou”, como de praxe acontece nas prefeituras dos interiores, o pessoal da educação e outras secretarias para se fazerem presentes à apresentação. Agora, imaginem um evento da cultura, com pessoal de todas as secretarias obrigados a ir, em um sábado de fim de mês? Os ânimos estavam exaltados.

Adentrei em meio ao povo, enquanto aguardava encontrar o amigo. Duas senhoras professoras conversando, e uma frase me chamou a atenção: “será que este secretário pensa que não temos o que fazer? Ele acha pouco o que fazemos na escola, pra secretaria e para o prefeito? Será que o povo da cultura sozinho não dava conta desse tal de Iramar? Se é pra fazer palanque, que Ele chame os "cabocos" dele. Eu não. Ou ao menos nos pague nosso FUNDEB" (ou FUNDEF, não lembro se decifrei).

Agora, minha expectativa aumentara. Os slides e a apresentação passaram em minha mente, com a angústia de que poderia ter sido melhor preparado. Ou ainda: O que estou fazendo aqui? Pior ainda, acho que toda minha vida ṕassou em minha frente naquele instante. Não foi uma sensação muito boa.

Agora, junto ao amigo secretário, sou levado à apresentação. Acomodados em suas cadeiras, impacientes, minha platéia me aguardava (ansiosa?). Coincidência ou destino, as duas senhoras professoras estava sentadas bem à frente, nos primeiros lugares. O mestre de cerimônias (sim, tinha um) ressaltando a importância do evento para a cidade e para o engrandecimento cultural do público, elevava meu nome a uma altura por mim nunca imaginada. Me apresentando com uma voz forte, explorava a palavra MESTRE...MESTRE...MESTRE... antes de meu nome e eu pensando: “Eita, me ferrei!”.

Quando a mim foi entregue o microfone, mais uma vez ouvi o cochixo das senhoras (agora não tão baixo):

- E isso aí é que é o tal Mestre Iramar?

Não entendi o que esperavam. Talvez um homem idoso, barbado, gravata e fala mansa. Talvez alguém vestido de super-herói que viria salvar a cidade delas, ou quem sabe, prevendo o futuro, algum enviado do Temer já os preparando para no futuro gritarem “Fora Dilma”.

Eita que acredito que aquela situação (primeira na minha carreira), fora tão pesada quanto o fardo que um dia me fez desistir de ser mestre-de-obras. E apresentei.

Pra não ficar no vácuo... duas ou três vezes tomei café na casa de uma das senhoras professoras discutindo o conceito de Cultura.


Ipu/CE, 06/12/2016.

Prof. Antonio Iramar Miranda Barros
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Sobre Rárisson Ramon

Rárisson Ramon, de Ipu - CE de nascimento e criação, é acadêmico de direito, faz participações em rádio e é blogueiro.